Apresentação de Baianidade na mídia (27-11-09)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Mês das dúvidas

Onde está o lugar comum de todos os fins de ano pelo mundo, se o fim de ano é relativo para cada região do planeta? Para os chineses, o ano começa com o início da primavera, mas para nós ocidentais, a virada de 31 de Dezembro para 1º de Janeiro é o ritual simbólico que dá início a mais uma temporada. Pensar na ceia de natal, na paz do ‘reveillon’ repleto de roupas brancas e fogos de artifício pelo céu escuro que anuncia novos tempos pode ser um clichê desgastante, mas uma pitada de ‘algo mais’ pode transformar o ‘mês da despedida’ no mais emocionante de todos os meses.
Pelo menos essa é a proposta da peça “Diciembre” (Dezembro em espanhol), que arrancou da platéia todos os tipos de emoção na pequena Sala de Coro do TCA, em plena 4ª feira a noite. O Festival Internacional de Artes Cênicas deu luz a uma cidade ‘fria’ como Salvador tem se tornado: pessoas frias umas com as outras, vizinhos que não conhecem quem mora da porta ao lado, que pouco se importam se no outro andar do prédio há alguém que compartilhe do mesmo gosto musical que o seu ou que tenha problemas de difícil solução. Salvador terá a oportunidade de refletir sobre o seu futuro, e como Salvador somos todos nós, cada um de nós, soteropolitanos, devemos decidir se queremos viver com medo de quem está a nossa volta ou se nos abriremos para o mundo, como nas mais provincianas cidades do estado.
A peça “Diciembre” é chilena, mas poderia ser de qualquer outra nacionalidade: sensações universais como a bravura ou até mesmo ‘o medo’ todos os dias nos colocam em dúvida, e a única certeza que temos é que morreremos com elas. A busca por achar um melhor caminho pode durar toda uma vida, e no caso da peça em questão, foi o tema do enredo: o personagem de Jorge Becker é um militar chileno que, no ano de 2014, em plena guerra, tem tempo para passar um natal em família com as suas duas irmãs. Porém, o tempo é curto e ele logo terá de voltar ao combate, embora esteja extremamente perturbado pelas insanidades no conflito. E aí entram as suas duas irmãs, que por algum momento me pareceram ser seu sub-consciente em forma de grilo do Pinóquio, para darem um foco maior ainda a temática da peça: a dúvida.
Uma das irmãs faria o ‘possível e o ilícito’ para que o personagem de Becker não voltasse para o conflito, já a outra, via a representação militar como uma honra pátria (semelhante com o que acontece na história de Mulan, com a diferença que, além de ambientada no Chile – e não na China – sua irmã não chegou ao ponto de encarar uma guerra em seu lugar). Uma atitude nossa pode rumar o mundo das nossas vidas, e quem sabe os rumos do mundo. A cada passo seu, uma nova era estará em construção, e com o nome sugestivo ‘Diciembre’, o que seria o fim do ano ganha ares de um recomeço ardente de dúvidas e angústias, com a certeza de que da vida só nos sobrarão dúvidas e inseguranças.

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