Pergunte a um chinês de onde veio o seu povo, e a pergunta lhe parecerá tão óbvia que a resposta pode ser substituída por outra pergunta: ‘como assim?’ Há milhares de anos, alguns povos do extremo oriente já habitavam alguns países que aos poucos foram construindo a sua identidade nacional. O processo de ‘imigração’ (a chegada de pessoas de fora a um determinado local) é uma novidade para chineses, japoneses e coreanos: normalmente eles ‘emigravam’ (saíam de suas terras em busca de outras, como os japoneses que vieram ao Brasil e formaram o bairro da Liberdade em São Paulo), logo, suas identidades nacionais pouco sofreram alterações.
O Brasil, que nessa década completou apenas meio milênio, não consegue se enxergar de outra forma que não como mistura: os nativos dessa terra só são autodenominados ‘índios’ a fim de se unificar o conceito de ‘povos da América pré-colombiana’, mas entre as próprias tribos que habitavam a América antes da chegada dos europeus há muitas diferenças étnicas, como há entre os negros e entre os brancos. Os nativos dessa terra que por aqui estavam no ano de 1500 dizimaram outros tantos nativos, da mesma forma que os portugueses fizeram, e o reflexo da dominação européia é refletida na sociedade brasileira: hoje, há mais brancos no Brasil do que em Portugal.
Levando em conta que o processo de colonização não pode ser considerado um crime, tendo em vista que todos os grupos buscavam seus espaços, e quanto mais fortes eram, mais conseguiam sobrepor a sua força, os portugueses são considerados por muitos estudiosos das ciências sociais como os grandes vilões da nossa história. Ora, num mundo que ‘não pertencia a ninguém’, as terras eram disputadas como migalhas de pão, e seres humanos eram classificados como melhores ou piores (como ainda são) dependendo de sua etnia, uma maneira inteligente de justificar a dominação de pessoas que dariam como retorno a força de trabalho, pois os exploradores não queriam ‘sujar as suas mãos’. Nunca houve paz em nenhum canto do planeta ao longo da história das sociedades, e a África, que hoje é tão visto como oprimida, sempre viveu em pé de guerra devido a rivalidades milenares entre tribos hostis. Ao vencer um oponente, este era transformado em escravo e vendido, tantas vezes, para europeus que financiavam o tráfico negreiro afim de não depender apenas da mão de obra indígena, que já trazia problemas de resistência dos jesuítas, que tentavam dar mais humanidade aos índios.
Sendo uma ‘raça inferior’, não havia grandes problemas em escravizar os negros, que eram trazidos do seu continente em navios estrategicamente planejados para se evitar qualquer tipo plano de fuga: a África é repleta de diferentes dialetos e costumes, e dificilmente os negros encontravam semelhantes dos quais pudesse se comunicar a fim de se tramar algo contra os portugueses. Muitos africanos morreram na própria viajem de navio (que tinha péssimas condições de higiene), e os que chegaram aqui no Brasil precisavam de alguma forma arranjar uma forma de se defender de tão fortes explorações. Daí nasceu o Candomblé, um culto afro-brasileiro com raízes fortes nos santos católicos, a capoeira, uma mistura de dança e arte marcial que não eram percebidas pelos portugueses como ‘treinamento para combate’, e a culinária afro-brasileira, que se apropriou de elementos desprezados pelos portugueses, como algumas carnes, e daí nasceu, por exemplo, a feijoada.
Os índios e os negros resistiram bravamente contra o domínio europeu, mas o reflexo da sociedade nos dias de hoje mostra que ainda há muitas batalhas a serem travadas em prol da aceitação do brasileiro como um povo mestiço: existem muitos brancos pobres, mas há um ditado que diz que se você é negro e rico, provavelmente o seu nome é Pelé. As cotas no vestibular visam equilibrar as oportunidades de ingresso às universidades num país onde até a década de 90, predominavam alunos brancos na maioria das graduações (segundo relatos de muitas pessoas com as quais conversei de Salvador, São Paulo e Aracaju e Recife) e hoje, uma enorme miscigenação colore diversas salas de aula, nos dando a esperança de que, com oportunidades iguais, haverão menos barreiras para separarem as pessoas em oportunidades, e conseqüentemente, por condição social e etnia.
Não há relato sobre todas as histórias que se passaram por essas ‘adoradas e idolatradas’. Devemos respeitar muito esse chão que estamos pisamos, até hoje manchados do sangue de milhões de grupos que morreram na tentativa de proteger a sua integridade e conseqüentemente, dar a cara que o Brasil tem hoje. As matrizes étnicas, com a inclusão social, formarão um só povo, o povo brasileiro, mistura de cada pedaço do mundo num ‘país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza’. Não somos brancos, negros, índios ou amarelos: somos brasileiros, somos um pouco de tudo nesse país que tem de tudo um pouco.