Apresentação de Baianidade na mídia (27-11-09)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A moda dos Fios de Contas

De acordo com a mitologia do Candomblé os Fios de Contas (conhecidos também como Guias) são colares feitos de miçangas das mais variadas cores, dos mais variados materiais, e intransferíveis salvo as raras exceções. Sendo produzidos especialmente para aqueles que farão uso deles, os fios de contas no Candomblé representam essencialmente proteção dos Orixás.
Vindos da África para o Brasil esse conjunto de miçangas ganhou as ruas assumindo formas de acessórios para cabelos, broches, bolsas, e até roupas. Hoje, é possível combinar e criar diferentes estilos com pulseiras, brincos, sandálias, prendedores, anéis, tudo feito de contas e miçangas. Quem acaba ganhando são os artesãos que faturam com a venda desses acessórios. E o consumidor que acaba adquirindo um objeto personalizado.
Apesar da adaptação sofrida, os Fios de contas não perderam a sua simbologia e continuam sendo usados nos rituais e cerimoniais do Candomblé.

Unijorge recebe o diretor Pedro Bronz

Nesta quarta-feira a Unijorge recebeu a presença do diretor e roteirista Pedro Bronz que abriu uma sessão de perguntas e respostas sobre a produção do longa-metragem “Hebert de Perto” com direção de Roberto Berliner e Pedro Bronz .
O documentário que surgiu da história de vida e do drama que viveu o vocalista do Paralamas do Sucesso está entre os quatro filmes com a mesma temática que serão exibidos na 6ª edição do Festival Internacional de Cinema de Salvador.O evento é realizado anualmente pelo Grupo Sala de Arte promovendo a exibição de filmes, oficinas, mesas redondas.
Durante a sessão o diretor revelou que o filme surgiu de um acervo de material bruto que eles receberam para a montagem do longa e que durante a seleção de cenas, perdida entre o material, foi encontrada a frase que deu impulso para a produção do documentário “Se acontecesse alguma coisa comigo, eu teria capacidade de fazer tudo de novo” . A frase foi alvo de tamanha credibilidade, pois segundo Pedro, o Hebert é um cara que voltou à vida pela música.
O diretor quando questionado se o filme tinha o objetivo de falar sobre e vida do Hebert antes do acidente ou da banda, respondeu que o filme só é o que é por conta da história de vida de Hebert, porque senão seria totalmente diferente.
“O filme é uma história da saga de vida de um ser humano”, afirmou Pedro, “Nós tínhamos uma história na cabeça e nos baseamos no drama do Hebert para realizar a produção”.

A Noite dos Palhaços Mudos foi a noite em que apenas os risos soaram mais alto do que o silêncio.

O espetáculo teatral que surgiu baseado nos quadrinhos do cartunista Laerte Coutinho chegou à Salvador e tomou forma física no palco do teatro Sesc-Senac no Pelourinho.O texto que foi adaptado para o teatro é protagonizado por Domingos Montagner , Fernando Sampaio e William Amaral, sob a produção de Mariana Goulart e está entre os que se apresentam no Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (FIAC) de 23 a 31 de outubro.
A noite começou serena , não se ouviam sussurros nem burburinhos e a platéia digeria cada movimento atentamente.De repente o silêncio que até então parecia extraordinariamente incomum foi quebrado pelo som de um grande relógio que apontava a hora de fazer algazarra foi ai que eu começara a entender que tudo não se tratava de um drama, muito menos de uma epopéia, apenas um palhaço que havia perdido o seu nariz e que no auge do seu desespero foi tentado a aceitar a ajuda de um solidário companheiro de picadeiro, partindo assim numa jornada pelo nariz perdido.
Quem chegava por último achava tudo muito estranho, mas sem perceber em pouco tempo já estava preso a aquela mistura de mímica, dança, palhaçada, sonoridade e efeitos visuais que atraiam o público e despertavam a vontade de seguir também rumo ao resgate do nariz do palhaço. Pouco se notavam elementos no cenário, quando haviam eram bombas que explodiam e deixavam a sala com cheiro de pólvora durante 15 minutos, portões que apareciam e desapareciam numa extensão de segundos,cordas para escalada,mesas,carrinhos de brinquedo,sinos,janelas,serras elétricas,urnas e bonecos siliconados para boxe.
As simbologias estavam em todo lugar, no tamanho e na aparente fraqueza do palhaço, em seu nariz (resgate do riso), no vestuário dos “vilões da história”. Era o palco do teatro cedendo lugar para o picadeiro, podendo-se dar muitas gargalhadas com sátiras da vida cotidiana, musicais e menções a grandes produções cinematográficas. E sem perder o bom humor, resgatar valores de solidariedade, gentileza, amor ao semelhante, e nos fazer lembrar que ainda que hajam muitos problemas na vida ainda é possível sorrir.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O que somos nós?

Pergunte a um chinês de onde veio o seu povo, e a pergunta lhe parecerá tão óbvia que a resposta pode ser substituída por outra pergunta: ‘como assim?’ Há milhares de anos, alguns povos do extremo oriente já habitavam alguns países que aos poucos foram construindo a sua identidade nacional. O processo de ‘imigração’ (a chegada de pessoas de fora a um determinado local) é uma novidade para chineses, japoneses e coreanos: normalmente eles ‘emigravam’ (saíam de suas terras em busca de outras, como os japoneses que vieram ao Brasil e formaram o bairro da Liberdade em São Paulo), logo, suas identidades nacionais pouco sofreram alterações.
O Brasil, que nessa década completou apenas meio milênio, não consegue se enxergar de outra forma que não como mistura: os nativos dessa terra só são autodenominados ‘índios’ a fim de se unificar o conceito de ‘povos da América pré-colombiana’, mas entre as próprias tribos que habitavam a América antes da chegada dos europeus há muitas diferenças étnicas, como há entre os negros e entre os brancos. Os nativos dessa terra que por aqui estavam no ano de 1500 dizimaram outros tantos nativos, da mesma forma que os portugueses fizeram, e o reflexo da dominação européia é refletida na sociedade brasileira: hoje, há mais brancos no Brasil do que em Portugal.
Levando em conta que o processo de colonização não pode ser considerado um crime, tendo em vista que todos os grupos buscavam seus espaços, e quanto mais fortes eram, mais conseguiam sobrepor a sua força, os portugueses são considerados por muitos estudiosos das ciências sociais como os grandes vilões da nossa história. Ora, num mundo que ‘não pertencia a ninguém’, as terras eram disputadas como migalhas de pão, e seres humanos eram classificados como melhores ou piores (como ainda são) dependendo de sua etnia, uma maneira inteligente de justificar a dominação de pessoas que dariam como retorno a força de trabalho, pois os exploradores não queriam ‘sujar as suas mãos’. Nunca houve paz em nenhum canto do planeta ao longo da história das sociedades, e a África, que hoje é tão visto como oprimida, sempre viveu em pé de guerra devido a rivalidades milenares entre tribos hostis. Ao vencer um oponente, este era transformado em escravo e vendido, tantas vezes, para europeus que financiavam o tráfico negreiro afim de não depender apenas da mão de obra indígena, que já trazia problemas de resistência dos jesuítas, que tentavam dar mais humanidade aos índios.
Sendo uma ‘raça inferior’, não havia grandes problemas em escravizar os negros, que eram trazidos do seu continente em navios estrategicamente planejados para se evitar qualquer tipo plano de fuga: a África é repleta de diferentes dialetos e costumes, e dificilmente os negros encontravam semelhantes dos quais pudesse se comunicar a fim de se tramar algo contra os portugueses. Muitos africanos morreram na própria viajem de navio (que tinha péssimas condições de higiene), e os que chegaram aqui no Brasil precisavam de alguma forma arranjar uma forma de se defender de tão fortes explorações. Daí nasceu o Candomblé, um culto afro-brasileiro com raízes fortes nos santos católicos, a capoeira, uma mistura de dança e arte marcial que não eram percebidas pelos portugueses como ‘treinamento para combate’, e a culinária afro-brasileira, que se apropriou de elementos desprezados pelos portugueses, como algumas carnes, e daí nasceu, por exemplo, a feijoada.
Os índios e os negros resistiram bravamente contra o domínio europeu, mas o reflexo da sociedade nos dias de hoje mostra que ainda há muitas batalhas a serem travadas em prol da aceitação do brasileiro como um povo mestiço: existem muitos brancos pobres, mas há um ditado que diz que se você é negro e rico, provavelmente o seu nome é Pelé. As cotas no vestibular visam equilibrar as oportunidades de ingresso às universidades num país onde até a década de 90, predominavam alunos brancos na maioria das graduações (segundo relatos de muitas pessoas com as quais conversei de Salvador, São Paulo e Aracaju e Recife) e hoje, uma enorme miscigenação colore diversas salas de aula, nos dando a esperança de que, com oportunidades iguais, haverão menos barreiras para separarem as pessoas em oportunidades, e conseqüentemente, por condição social e etnia.
Não há relato sobre todas as histórias que se passaram por essas ‘adoradas e idolatradas’. Devemos respeitar muito esse chão que estamos pisamos, até hoje manchados do sangue de milhões de grupos que morreram na tentativa de proteger a sua integridade e conseqüentemente, dar a cara que o Brasil tem hoje. As matrizes étnicas, com a inclusão social, formarão um só povo, o povo brasileiro, mistura de cada pedaço do mundo num ‘país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza’. Não somos brancos, negros, índios ou amarelos: somos brasileiros, somos um pouco de tudo nesse país que tem de tudo um pouco.

O Mês das dúvidas

Onde está o lugar comum de todos os fins de ano pelo mundo, se o fim de ano é relativo para cada região do planeta? Para os chineses, o ano começa com o início da primavera, mas para nós ocidentais, a virada de 31 de Dezembro para 1º de Janeiro é o ritual simbólico que dá início a mais uma temporada. Pensar na ceia de natal, na paz do ‘reveillon’ repleto de roupas brancas e fogos de artifício pelo céu escuro que anuncia novos tempos pode ser um clichê desgastante, mas uma pitada de ‘algo mais’ pode transformar o ‘mês da despedida’ no mais emocionante de todos os meses.
Pelo menos essa é a proposta da peça “Diciembre” (Dezembro em espanhol), que arrancou da platéia todos os tipos de emoção na pequena Sala de Coro do TCA, em plena 4ª feira a noite. O Festival Internacional de Artes Cênicas deu luz a uma cidade ‘fria’ como Salvador tem se tornado: pessoas frias umas com as outras, vizinhos que não conhecem quem mora da porta ao lado, que pouco se importam se no outro andar do prédio há alguém que compartilhe do mesmo gosto musical que o seu ou que tenha problemas de difícil solução. Salvador terá a oportunidade de refletir sobre o seu futuro, e como Salvador somos todos nós, cada um de nós, soteropolitanos, devemos decidir se queremos viver com medo de quem está a nossa volta ou se nos abriremos para o mundo, como nas mais provincianas cidades do estado.
A peça “Diciembre” é chilena, mas poderia ser de qualquer outra nacionalidade: sensações universais como a bravura ou até mesmo ‘o medo’ todos os dias nos colocam em dúvida, e a única certeza que temos é que morreremos com elas. A busca por achar um melhor caminho pode durar toda uma vida, e no caso da peça em questão, foi o tema do enredo: o personagem de Jorge Becker é um militar chileno que, no ano de 2014, em plena guerra, tem tempo para passar um natal em família com as suas duas irmãs. Porém, o tempo é curto e ele logo terá de voltar ao combate, embora esteja extremamente perturbado pelas insanidades no conflito. E aí entram as suas duas irmãs, que por algum momento me pareceram ser seu sub-consciente em forma de grilo do Pinóquio, para darem um foco maior ainda a temática da peça: a dúvida.
Uma das irmãs faria o ‘possível e o ilícito’ para que o personagem de Becker não voltasse para o conflito, já a outra, via a representação militar como uma honra pátria (semelhante com o que acontece na história de Mulan, com a diferença que, além de ambientada no Chile – e não na China – sua irmã não chegou ao ponto de encarar uma guerra em seu lugar). Uma atitude nossa pode rumar o mundo das nossas vidas, e quem sabe os rumos do mundo. A cada passo seu, uma nova era estará em construção, e com o nome sugestivo ‘Diciembre’, o que seria o fim do ano ganha ares de um recomeço ardente de dúvidas e angústias, com a certeza de que da vida só nos sobrarão dúvidas e inseguranças.

Dezesseis Quadros por minuto

O Festival Internacional de Cinema nos deu um pouco de ‘luz ‘, em plenas salas escuras apenas refletidas pelas cores mais fortes e capazes de abrir as nossas mentes: as cores da arte. Os espaços escolhidos não poderiam ser melhores, afinal, tudo que esteja dentro de um shopping Center me faz sentir o cheiro de comércio, e no pequeno Cine Vivo, no Espaço Paseo, Itaigara, o que pude sentir foi um charme de um local vazio num dia de semana a tarde, com pessoas ao meu redor sem o mesmo furor pelas comprar como se vê por exemplo no Iguatemi, e com um espaço preocupado mais com os valores estéticos do que com apenas com a industrialização da arte.
Fazer arte é dialogar sem precauções, e sem maiores problemas em demonstrar um conteúdo de instrução politicamente correta, o filme ‘Dezesseis quadros por minuto’ (The speed of life, EUA 2007) mostra uma comovente história de alguns jovens nova-iorquinos que se divertem roubando câmaras de filmagem dos turistas e depois remontando partes desses vídeos afim de se contar uma nova história.
Aspectos da vida tradicional americana parecem ser desprezadas num filme que mais parece aderir a escola européia do que a comercial Hollywood. O personagem principal, Sammer, tem apenas 13 anos, mas carrega em si um aspecto transgressor em sua postura , com um cabelo grande, um jeito um tanto introspectivo e um olhar perdido e misterioso, me lembrou bastante o visual dos músicos do Strokes, que por sinal são de Nova Iorque.
Relações familiares conturbadas, um adulto vestido de super-herói disposto a aderir à brincadeira dos seus amigos crianças e promessas de uma vida melhor não concretizadas: todo esse universo extremamente exótico numa cidade de padrões tão antagônicos faz a imaginação de Sammer voar para bem longe, em busca de um mundo em que seus sonhos projetaram. Seu pai lhe prometeu uma viajem para o Alaska, e a sua expectativa se mantinha na medida em que cada vez mais seu mundo ia se reconstruindo, e seu irmão, um presidiário, era o que mais tentava te puxar para a realidade, tamanha amargura que era ver alguém livre disposto a criar sonhos proibidos para quem é vigiado por policiais todos os dias, embora de certa forma Sammer conte com a sorte para não ter o mesmo destino de seu irmão.
Os Estados Unidos do qual estamos acostumados a ver em filmes não está presente em ’16 quadros por minuto’, para começar, a constituição familiar não leva a padronização hollywoodiana, e no lugar de belas casas e jardins floridos, há muitos prédios e ares de uma vida cosmopolita, que poderia estar acontecendo tanto na própria Nova Iorque como em São Paulo, Londres, Tóquio e etc.
A arte de filmar passa pela arte de descrever: com diversos filmes nas mãos, Sammer e seus amigos fundiam vídeos e criavam novas histórias, e dessas histórias surgia algo novo, totalmente distorcido da realidade em que as pessoas que viveram a experiência nos vídeos tivessem passado. Acima de tudo, ‘16 quadros por minuto’ é um convite a um mundo de fantasia como almoço e uma queda brusca para a realidade como sobremesa.

Da estrada ào terreiro

Ir a um Terreiro de Candomblé em dia de festa não foi uma novidade para mim: há dois anos atrás fui a um terreiro na Estrada Velha do Aeroporto. Dessa vez, eu não estava sendo levado: de certa forma eu fui uma diretriz responsável pela ida de mais quatro pessoas, colegas de sala envolvidos também no projeto da matéria Cultura Brasileira e Baiana.
Ao buscar Lilia, Luana e Izana no Iguatemi, rumamos para o Cabula: eu não fazia idéia de como chegar lá, e confiei no senso de direção de quem por la passou. Uma pequena desatenção nos fez pegar a BR-324! Perdemos outro retorno e só nos sintonizamos ao chegar na Estação Pirajá: nada mal para um garoto acostumado com a Pituba, Costa Azul e etc. Todos os paradigmas de certa forma seriam quebrados na imensa viajem que além de espacial (no sentido de ‘espaço físico’) me levariam a outra concepção de mundo, enxergando uma Salvador mais plural e democrática.
Ao chegar no Terreiro, notei que outras pessoas da Faculdade também estavam, pelo mesmo interesse que agente. Os rituais aconteceriam no centro de um salão, onde do lado direito da porta sentavam apenas as mulheres, e do esquerdo apenas os homens. A hierarquia se fez presente em diversos momentos, a exemplo do respeito aos mais velhos e experientes, e quem ali está antes de qualquer coisa deve seguir a risca as normas estabelecidas, estando lá por identificação com o Candomblé ou apenas para fazer o projeto: se o brasileiro tem dificuldade para seguir normas, como alguns autores defendem, ao menos há espaços selecionados onde o respeito prevalece, e um desses espaços foram os terreiros que visitei, e imagino que o Candomblé em si siga uma linha de tradição na qual a transgressão não é bem vista, e em muitas vezes, a transgressão não deve acontecer, afim de se manter um pouco do que ainda se sobrou de herança cultural do nosso povo brasileiro, que até hoje consegue mostrar o quanto é especial, seja pelo seu jeito ‘subversivo’, seja pelas suas instituições reguladoras.